Solta a voz do interior do teu frágil corpo
Da caravana que passa, o latido do cão
Um grito de dor se ouve na rua desertificada
Naquela casa pobre e abarracada
Voz solta as marras, entre mãos gretadas
Barca segue seu caminho em vagas alterosas
Velas desfraldadas ao vento enraivecido
Homem ao leme perscruta os céus
Terra desbravada. enxada em mãos calejadas
Garganta sufocada em costas curvadas
O tempo passa como o suar no seu corpo
Canseira da jornada que está a terminar
Na fábrica com máquinas a trabalhar
Ruídos, automáticos gestos ocupados
Mulheres, homens em azáfama a laborar
Mísero salário quantas vezes lhes é roubado
Passa-se fome, sofre-se miséria
Na labuta constante e desgraçada
Aqui, ali, por esses mundos fora
Poucos com muito, muitos com nada
Usurários em poltrona instalados
Unhas cuidadas, fatos engomados
Para eles os homens são números
Alheios á ética e solidariedade social
Engravatados na vida bem colocados
Debitam discursos, teorias, soluções
Barriga cheia, múltiplos empregos
Muitos, responsáveis destas situações